Banco Central antecipa corte dos juros, mas mantém tom rigoroso sobre inflação e fiscal
O Banco Central do Brasil trouxe uma sinalização aguardada pelo mercado ao confirmar, nesta terça-feira, que dará início a um ciclo de redução da taxa básica de juros, a Selic, já na sua próxima reunião. Atualmente fixada em 15% ao ano, o maior patamar registrado desde 2006, a taxa passará por ajustes para baixo após um período de forte aperto monetário. No entanto, o Comitê de Política Monetária fez questão de ressaltar que esse movimento não significa um abandono da postura cautelosa. De forma unânime, os membros do colegiado destacaram que os juros devem permanecer em níveis restritivos por um tempo considerável, garantindo que o processo de queda dos preços não seja interrompido antes da hora.
A decisão de iniciar os cortes agora, mesmo mantendo uma postura contracionista, reflete um cenário econômico de sinais mistos. Por um lado, a atividade econômica demonstra certa resiliência, o que poderia pressionar a inflação pela demanda; por outro, a política monetária rigorosa tem sido o principal pilar para o controle dos índices de preços observados até aqui. O Copom explicou que a magnitude desses cortes e a duração total do ciclo serão decididas passo a passo, dependendo diretamente das novas informações que surgirem sobre o comportamento da economia brasileira e global.
A Meta de Inflação e a Ancoragem de Expectativas
Um dos pontos centrais da ata divulgada pela autoridade monetária é a preocupação com a ancoragem das expectativas de inflação. Embora o IPCA tenha fechado o ano de 2025 em 4,26%, ficando dentro do limite estabelecido pela meta, o Banco Central observa que os agentes do mercado ainda projetam índices acima do centro da meta para os próximos anos. Para o Copom, esse descolamento entre a realidade atual e o que o mercado espera para o futuro exige que a restrição monetária seja mais severa e dure mais tempo do que em situações normais, visando convencer os investidores de que a inflação voltará ao patamar desejado.
O colegiado reforçou que a manutenção de juros altos por um período prolongado é uma resposta direta a esse ambiente de expectativas desancoradas. O entendimento compartilhado por todos os membros do comitê é de que a credibilidade da política monetária depende da firmeza em não acelerar os cortes antes que se tenha total segurança sobre a convergência da inflação. Essa estratégia busca evitar que uma redução precipitada dos juros acabe gerando um novo repasse de preços e force o Banco Central a retomar altas de juros no futuro próximo.
Reformas Estruturais e o Risco da Taxa Neutra
Além das questões imediatas de inflação, o Banco Central emitiu um alerta sobre o impacto das políticas fiscais na eficácia dos juros. O Comitê destacou que a percepção de um possível esmorecimento no esforço por reformas estruturais e na disciplina fiscal, somada às incertezas sobre o controle da dívida pública, tem o potencial de elevar a chamada taxa de juros neutra da economia. Esse indicador funciona como uma referência: se ele sobe, o Banco Central precisa manter a Selic em patamares ainda mais elevados para conseguir o mesmo efeito de controle inflacionário, tornando a luta contra a alta de preços muito mais cara para o país em termos de crescimento e emprego.
A elevação dessa taxa de referência é vista como um risco deletério, pois retira a potência das decisões do Copom. Em outras palavras, se as contas públicas não estiverem em ordem, o impacto positivo de uma queda na Selic pode ser anulado pela desconfiança do mercado, aumentando o custo da desinflação para toda a sociedade. Por isso, a autoridade monetária insiste que o sucesso do novo ciclo de queda de juros que se inicia agora depende não apenas da caneta do Banco Central, mas também de sinais claros de responsabilidade fiscal por parte do governo federal.
Por Lucas Cauã | Com informações CNN Brasil e Banco Central










